Mudança de planos

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Ali estava eu, em pé, quando tudo o que mais desejava era fazer algo proibido.
Olhei mais uma vez para a vitrine, o brilho me seduzia, despertava em mim um desejo que não sabia explicar, apenas sabia que se não o realizasse agora não teria coragem jamais.
Respirei fundo. Uma, duas, três vezes. Espiei ao redor, o movimento nas redondezas naquele dia estava calmo, anormalmente calmo. Tudo parecia conspirar a meu favor. Parei de pensar, quando vamos fazer algo errado não podemos refletir muito, ou acabamos por desistir, e eu, decididamente, não queria desistir.
É agora ou nunca!
Atravessei a porta, um sensor qualquer anunciou a minha entrada no lugar. Observei com calma o ambiente. Tinha ares de lugar sagrado, iluminação discreta para não agredir a beleza de cada um dos objetos ali. O cheiro suave e requintado de um lugar onde a pobreza não tinha vez. O som de alguma sinfonia, que não consegui distiguir bem qual, mas que fazia com que quiséssemos permanecer ali o máximo de tempo possível.
Senti tudo isso num único olhar, numa única respiração, naquele ínfimo momento que estive só, desde que a companhia anunciara minha presença e ela saía de algum lugar nos fundos da loja e chegava até mim, solícita.
Não, não a conhecia, e certamente não sabia o seu nome, mas anotei mentalmente que teria de descobrir, e logo. Quando perguntou-me em que podia ajudar, não soube responder. A vontade que me levara até ali passara no instante em que coloquei os olhos nela, no exato instante que o gosto de seu perfume penetrou meus poros e me trouxe a recordação do cheiro de minha falecida mãe. A única coisa que eu queria, agora, era estar com ela, senti-la próxima a mim, tê-la.
Disfarcei. Avisei que apenas viera olhar um anel que vira na vitrine, mas quando se dispôs a pega-lo para mim não soube dizer qual.
Bem, ela podia ser jovem mas não era tola. Percebeu que eu não estava sendo sincero. Olhou-me nos olhos e perguntou novamente, agora sem ares de vendedora, em que podia me ajudar. Ousei dizer a mim mesmo que era ela quem eu queria, mas essas palavras não passaram de pensamentos que mantive presos apenas em minha cabeça, do mesmo modo que não passaram de pensamento o desejo de estar com ela agora em Itacaré, na antiga casa onde um dia havia sido feliz, num belo e romântico fim de semana. Mas tudo era sonho, apenas devaneio, se dissesse isso em voz alta ela poderia ter me mandado para Deus sabe onde.
Então, mais uma vez disse que era uma anel que havia visto na vitrine, e desta vez soube apontar, com certeza, qual. Pegou a peça, "era exatamente o que eu queria". Embalou-o, paguei uma fortuna, que dividi em várias prestações que só poderiam ser pagas naquela loja (precisava de algum motivo para voltar sempre), e saí.
De fato aquilo que agora eu carregava no bolso era meu sonho inicialmente, apesar de haver planejado adquiri-lo de outra forma, mas nesse momento meu desejo era outro. Infelizmente, esse não era só pagar para ter. Meu sonho, segundo me informara um crachá, tinha nome: Alice.

Juliana Reis

4 idéia(s):

Juliana,
Acho o texto bem encadeado, com as descrições prendendo o leitor, até porque não são extensas. A única coisa que fiquei remoendo no texto é o fato de você ter citado o nome da vendedora no meio dele. Pareceu-me que se você tivesse guardado o nome dela, o efeito da última frase (que gostei muito!) teria sido maior, como que uma revelação. Abs!

13 de agosto de 2008 às 11:21  

Eu concordo com o Rafa. Inicialmente, o nome dela só aparecia no fim, não? Eu acho que dá mais efeito, sabe?

Beijos.

13 de agosto de 2008 às 16:57  

sem dúvida alguma, o catador está certo: o nome da personagem deve aparecer como uma revelação, apenas no final. há uma palavra em seu texto que deve ser alterada: distinguir, ao invés de destiguir. gostei do título: muito apropriado. sabe? é interessante conversar com vcs assim, ler os textos e o que os colegas perceberam a respeito. é bem dessa interação que precisamos todos.

13 de agosto de 2008 às 23:04  

Sugestões aceitas!
Obrigada pela idéia Rafa, realmente ficou melhor sim sem o nome no meio (apesar q sim tinha no texto original, Ju). Mas como disse a professora ouvir e ler um texto é bem diferente...
Qualquer nova sugestão me avisem!

20 de agosto de 2008 às 10:45  

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